Quando ele fecha os olhos é absorvido pela ventania do mundo dos mortos. Não se sabe bem quem são os seres, mas a tristeza substancia o coração mesmo quando o sorriso espanta o frio que invade. A beleza em se chegar até ali é que a estadia é amparada pelo fechar de pálpebras e acariciada por um amor interrompido. Pode-se, inclusive, ver, hora ou outra, por entre as tarjas negras que decretam a escuridão, Dante concluindo amigáveis conversas com Nerval. Posto que nenhuma hora é objeto de passagem, o tempo congela as “validades vencidas”e muitos olhos estreitos dissimulam mundos ilusórios e extensas melancolias. A dificuldade está em explicar que o sonho deixa de ser um devaneio absurdo para se tonar a contra-ordem que é a ordem da contra-ordem. É difícil descrever, a estrutura é particularidade ingerida em lentidão, e lá, quando ele fecha os olhos, não há parte, todas as buscas acontecem ao mesmo e recaem em um funil profundo que tem sua base no encurvamento de prédios antigos e altos ou na convergência relegada ao único rosto que já não existe. Ele sente que tudo ali tem um espírito pobre e estabelece a noção de um bem perdido e, movendo a órbita do olho por dentro do sono, vê que nada há que se mova que queira voltar à vida. Docemente Eurídice aparece sem olhos. Ele sabe que tudo que enxerga vê para dentro, ali é o dentro sem uma segunda via, ali é o dentro de onde qualquer instância pode ser ouvida, ali é o dentro de quando ele fecha os olhos e é absorvido pela ventania do mundo dos mortos. Não se sabe bem quem são os seres, mas a tristeza substancia o coração mesmo quando o sorriso espanta o frio que invade. A beleza em se chegar até ali é que a estadia é amparada pelo fechar de pálpebras e acariciada por um amor interrompido...
Escrito por copyright by jorgeana braga às 15h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
saturno.

Foi uma quimera andar por entre as vagas personas que o mundo me apresentara, é onde uma sensação tarantular invade a maneira de perceber o que não há. Andrajos disformes e curvas sinuosas se fizeram perfeitas em meu espírito, não sei como definhar a forma antagônica do meu mundo interno, posto que a época em que vivi apenas adoça e recebe andrajos de linguagem. Só pude dizer “sins”, muito mais “sins” que não. É necessário apontar a descida do “não” como a saída necessária, muitas vezes vantajosa, muitas vezes a única. saída. Sou um melancólico, às vezes amarelo sentado em um restaurante, bebendo a folia alheia, não sou eu que sorrio, é algo como a cara da minha cara, forma tão distante que nem sequer estranho quando se torna estranho. Mas não falo, levanto copos e brindo, vou a festas e sorrio, sorrio muito, “olá tudo bem?” “não, não viajei nas férias.” “ah sim, compras de natal.” “claro, gozei horrores”, “recebo todos lá em casa no domingo”. Prestes a fazer alguns anos a mais no calendário decidi parar a vida, não, nada de suicídio renascentista, apenas resolvi parar a vida, parar tudo, não impregnar as coisas de continuidade, mesmo que uma aspereza acompanhasse meus primeiros movimentos, a paralisia de tudo se fez premente, necessária mas não triste. A tristeza é só um detalhe do tempo. Resolvi que meu novo nome seria Saturno. Acontece que as pessoas, principalmente as queridas, não estão preparadas para reconhecer um estranho, acontece que quando mudei de nome meu rosto também resplandeceu a mudança. Acontece então que o lugar da verdade é solitário, é como beber água fervendo, é como ir contra a natureza.Acontece.
Escrito por copyright by jorgeana braga às 17h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
trecho do 'DIÁRIO DO ESCURO"
Sustento sim não adianta insistir. Sou a que menos teme a insistência menino. Por mais que a memória da paisagem branca anteceda a sonolência. A tosse grossa acorda as velhas. As coisas. Adoro a palavra coisa. Coiso em tudo que digo afirmo ou nego.Coisifico. Mas devo permitir algumas intromissões, mesmo doloridas, nem tudo que é dolorido é desequilibrado. Não consigo dizer para ninguém que me sinto do avesso, como se meu ser, de uma hora para a outra, estivesse mudando de lado. Devo dizer que esse movimento é desconcertante, equivale a não ser mais a égua pura, dentro de uma esdrúxula fonte constante. Depois de uma certa idade não sei que papéis interpretar , nem sei se tenho um rosto a ser maquiado. Entro no ônibus e o lotado me parece invisível, me apresenta a sobra.
Escrito por copyright by jorgeana braga às 19h44
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|